Canteiro conceito-experiência I Projeto Floresta
- Bruna Santos
- 19 de jul. de 2024
- 2 min de leitura
Escrevo pela oportunidade de trocar com artistas e cientistas no âmbito de estabelecer pontos de contato com a Floresta, para além de uma visão produtivista.
Chamo de conceito-experiência aquilo que vem comigo por meio da vivência em campo em zonas rurais da Mata Atlântica sul Bahia e da cidade do Rio de Janeiro. São os principais recursos que carrego para construção do projeto em residência. Indico abaixo temas norteadores:
70% dos brasileiros vivem em módulos urbanos. Se tratando da cidade do Rio do Janeiro, a construção da capital aconteceu pela ocupação imperial dentro de um modelo colonial rígido ao modo de viver e pensar eurocêntrico. Pela geográfica e luta de resistência, ainda existe uma brecha de Mata Atlântica, paisagens exuberantes, montanha, mar e águas que sobrevivem com força de inspirar aos fluxos de vida dentro da cidade.
A proximidade e convivência com a vasta natureza presente possibilitaria plasmar uma vida menos separatista. Parece que a cidade escapou da possibilidade do planejamento, sendo cooptados pelos interesses do capital. Portanto, pôr em questão o planejar urbano considerando novos caminhos.
Sobre o pensar na Floresta em termos de agrofloresta se mostra como meio viável de aplicar os conhecimentos da floresta na agricultura, produzindo alimentos saudáveis e regenerando áreas degradadas para geração de vidas. Os Sistemas Agroflorestais - SAFs - são pensados com base na sucessão ecológica, análogos aos ecossistemas naturais, em que árvores exóticas ou nativas são consorciadas com culturas agrícolas, trepadeiras, forrageiras, arbustivas, de acordo com um arranjo espacial e temporal pré estabelecido, com alta diversidade de espécies e interações entre elas. (EMBRAPA, site 2022)
Nenhuma prefeitura se interessa pelo corpo profundo da cidade. Plasmada por uma vida de concreto, ferro e “lixo”, a cidade gera corpo adoecido até torná-lo insolúvel. A relação com o ambiente urbano, espaço entre muros, andares, rolantes, consumo, torna-o coisa também. O corpo urbano se descola do corpo da terra, se separa dos ciclos e fluxos naturais. Assim, do corpo vai escapando a própria vida. E o Ser só terá chances de vir a ser se viver com vontade de despertar (em seu contexto).
O contato com a Floresta traz a possibilidade de uma abertura multissensorial e acesso a uma inteligência intuitiva, onde as práticas ecossomáticas são caminhos concretos para uma ecologia profunda aplicada e o diálogo planetário. “Quantidades excessivas de dor individual ou doença é uma outra forma de ditadura política. A saúde de uma cidade depende do somatório da saúde orgânica dos seus cidadãos” diz Gonçalo M. Tavares no Atlas do Corpo e da Imaginação, pg. 336.
Não se pode projetar crescimento escalável, ou modelos escaláveis, com recursos finitos. O pensamento produtivista se fortalece servindo as necessidades de mercado, numa lógica que não nos serve mais.
No âmbito pessoal, os indivíduos deverão sair de uma posição preponderante de consumidor (de produtos, serviços e ideias) e assumir uma posição de autonomia, onde o indivíduo faz, se realiza fazendo e conta com a sua comunidade para viver e o bem-viver. São configurações possíveis de uma vida que flui naturalmente, assim como um rio. Quem sabe as relações comunitárias possam se restabelecer em contato com a Floresta, seja nas cidades, seja nas zonas rurais.


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